ÍNDICE
ESCRITORES
Maria Edith Prata Real
Membro correspondente da ASES. Contista muitas vezes premiada. Pertenceu ao corpo redatorial do jornal A Voz
de Bragança, com crônicas enviadas de Santos, onde reside. Atua na Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes
de Santos e Associação de Poetas e Escritores da Baixada Santista.
GENTE EXCEPCIONAL
I
No bairro do Jabaquara, que oficialmente nem bairro era, pois não passava de um aglomerado de casebres
e da gente que vivia no sopé do morro, nasceu Jão, que nem João era, pois não passava de um menino bobo,
que vivia só, no pé de toda gente. Jão mal pronunciava o nome.
Nada tinha de seu. Seu, só seu, era o grave problema mental diagnosticado por leigos como "Q.I. baixo".
Era Q.I. baixo e pronto! O problema estava descoberto. Tanto quanto a solução... encoberta.
Sem cobertas ou roupas para vestir, sem alimentos e sem a cobertura de um teto, João vivia à mercê da
caridade, porque do pai ou da mãe ninguém sabia.
Por misericórdia de alguém, foi levado ao Bairro da Boa Esperança, na Vila Rica, onde fora instalada
a Casa do Excepcional que oferece assistência, amparo e ... amor!
II
Dirceu, apelido Ceuzinho, parte final do diminutivo do nome próprio. De Ceuzinho para Céuzinho foi um
instante. Não tanto pelo sotaque nordestino da mãe, mas pelo seu jeito de ser. Meigo, bom carinhoso,
tranqüilo, sereno como um céuzinho. Pouco fala. Não dá sentido às palavras.
Como céu na terra não existe, por causa do seu Q.I. baixo, Céuzinho, alheio a quase tudo, foi levado
com carinho, pelos pais, à Casa do Excepcional, no Bairro da Boa Esperança, na Vila Rica, para continuar
recebendo caridosamente, assistência, amparo e... amor!
III
O jornal noticiava: "Divergência de opiniões, divide a comunidade de Vila Rica, na Boa Esperança", e
mais: "moradores exigem a mudança da Casa do Excepcional instalada naquele bairro de classe média - alta.
Argumentam que as crianças ali matriculadas possuem desagradável aparência física. Maneiras e trejeitos
das mesmas causam mal-estar psicológico a alguns moradores e provocam inaceitável poluição visual.
Outras pessoas residentes no local, a quem tentamos entrevistar, declaram-se alheios ou indiferentes
ao problema. Está agendada para a próxima semana visita de técnicos da Prefeitura para averiguações
e posterior decisão".
IV
Céuzinho e Jão brincam no quintal da frente da Casa do Excepcional, com figuras infantis, tentando
classificá-las, com o auxílio da professora, segundo o reino da natureza ao qual pertençam: minerais,
vegetais, ou animais. Pedras de um lado, água do outro, pessoas e animais em outro montinho de figuras.
Aprendem também a falar.
Batem à porta.
Os meninos olham ... por olhar, e assim permanecem: olhando para aquelas pessoas que bateram à porta.
O líder do grupo visitante, formado por moradores e funcionários da Prefeitura, pergunta:
- Quem são vocês?
Céuzinho ainda vivendo a recente lição recebida, responde por ele e por Jão:
- Ge-en-te! Bi-i-cho, não!
Jão ficou apenas balançando a cabeça para a frente e para trás, numa incessante afirmação, rindo muito
daqueles bichos que eram gente.
(volta)
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