ÍNDICE
ESCRITORES
Hércules Scaramussa
O DIA QUE NUNCA CHEGOU
(continuação)
O velho salta em terra, recebido com assombro. Gabando-se de ser o homem de confiança do seu mestre
contrata estivadores para descarregar a carga. Em seguida espalha a notícia de que toda a carga de
peixe será distribuída entre os moradores pobres da vila. Rapidamente uma multidão de subnutridos
se aglomera no cais.
Da casaria, protegido pelas sombras, Zeca observa com cuidado.
O velho faz a distribuição de toda a carga sob o olhar furioso dos atravessadores acostumados a
explorar os pobres coitados.
– Quem é o seu mestre, velho maluco? – pergunta um atravessador. – Vocês não iriam gostar de saber.
É um homem muito mal. Acho melhor não chegar perto. Já vi muito bucho ser perfurado pela sua mão em
forma de gancho – responde o velho sussurrando.
– Avisa-o para não voltar a esse cais, do contrário não me responsabilizarei – diz um atravessador
que impressionado com as palavras do velho se contenta com a intromissão em seus "negócios".
Protegido pelo assombro e pelas sombras o velho segue em sua tarefa. Incumbido de introduzir o irmão
de Zeca no barco o faz com cuidado, após a dispersão da multidão.
Sem entender direito aquele velho maluco que insiste para que o acompanhe, o irmão de Zeca entra no
barco, meio a contragosto. Em seguida, o velho se retira.
O espanto é grande e Zeca pede para que se contenha. Os dois se abraçam entre lágrimas.
– Veja só, você está um homem já.
– Pensávamos que estavas morto – responde o irmão ainda trêmulo.
– Morto, como assim?
– Alguns meses após sua partida acharam destroços do teu barco no mar. Chegaram a comentar que tinhas
cometido suicídio arremessando o barco contra as pedras.
– Essa idéia viajou um bom tempo pela minha cabeça, mas no fim o bom senso prevaleceu.
Tornam a se abraçar na tentativa de recuperar o tempo perdido pela distância.
– Como está nossa mãe?
O irmão abaixa a cabeça, teme o olhar de Zeca.
– Fala, o que aconteceu?
– À tarde se colocava em frente ao mar e só voltava quando íamos busca-la, altas horas da noite. Um
dia chegou a notícia de sua morte e dias depois... – As palavras engasgam na garganta do irmão de Zeca.
– Eu preciso escutar.
– Dias depois, ela se foi tomada de muita dor. A notícia de sua morte foi demais.
Zeca esmurra a tábua da casaria, em seus olhos um misto de tristeza e revolta.
– Sou um maldito, não bastasse ter tirado a vida de quem mais amava matei também minha mãe.
– Preciso te contar uma coisa.
– Fala irmão, nada mais me choca, nada mais me importa. A vida tirou tudo que eu tinha, o que mais vai
me assombrar?
– Miriam não morreu, o tiro a atingiu de raspão. Tonhão, aquele maldito teve o fim que mereceu.
Uma faísca brilhou nos olhos de Zeca como o ar que volta ao pulmão doente, o sangue a artéria gangrenada.
– Miriam não morreu? Meus Deus como és generoso comigo. Tantas noites fiquei a pensar em seu corpo
desfalecido descendo a cova. Acordava no meio da noite banhado em suor escutando sua voz no vento.
Que notícia boa me traz, irmão!
Vendo que seu irmão mantém a cabeça abaixada, Zeca o encoraja.
– Vamos, irmão, levanta a cabeça. Por que foges do meu olhar?
– Logo após a falsa notícia de sua morte e a partida de nossa mãe eu e Miriam ficamos muito unidos
pela dor que nos abateu. Não tive como evitar, irmão. Apaixonei-me por ela.
– É natural Miriam sempre foi muito prendada.
– Você não entende - grita o irmão - Nós estamos juntos.
– Como assim, juntos?
– A principio ela não queria apesar de saber de sua morte. Até hoje ainda sinto que te ama. Tem vez
que a vejo na janela a mirar o mar, não se contentando com o destino.
Zeca desfere um soco que arremessa o irmão contra as tábuas da casaria.
– Como fazes isso com teu irmão, rapaz, como?
Enfurecido, Zeca segura o irmão pela gola da camisa.
– Desculpa, Zeca, desculpa. Pensava que estavas morto – Responde o irmão entre lágrimas.
Sua sinceridade toca Zeca que o abraça.
– Você não tem culpa. Eu que sou um infeliz condenado a vagar pelo mar.
– Temos um filho, o batizamos de Zeca – diz o irmão caindo em grande choro.
- Coragem, irmão, você não tem culpa.- Zeca o conforta, abraçando-o.
Em seguida pega uma sacola no fundo do barco.
– Toma, aqui tem dinheiro suficiente para que possam viver felizes, comprar seu próprio barco, reformar
a casa.
– Zeca, eu não posso aceitar. Não é justo. – Aceita, irmão, deixa-me reparar o erro de minha ignorância.
Já causei mal demais as pessoas movido por um instinto quase selvagem.
– O que pretendes?
– Não te preocupes comigo. Têm uma nova família agora, percebes?
Só te peco que cuides bem dos seus e nunca revele que estou vivo. Também nunca esqueça de nossos pais
e dos ensinamentos que nos deixaram.
– Zeca, você me perdoa?
Os dois se abraçam e choram.
– Agora vai. Vai – Grita Zeca para não alongar o sofrimento.
Ainda atônito o irmão se retira. Zeca soca a parede de madeira do barco.
– Onde será que se meteu o velho?
Protegido por uma capa escura pula em terra. Suas pernas acostumadas ao mar demoram a ter um bom ritmo.
Seguindo sempre pelas sombras das calçadas encontra o velho tomado pela embriaguez. Ampara-o nos ombros
e voltam para o barco.
Zeca deita o velho no catre da casaria. Liga o barco e segue para o alto mar, os olhos ainda banhados em
lágrimas. À medida que penetra no mar sente-se como quem volta para casa. É como se o mar fosse o lar e
a terra um sonho distante.
Em alto mar, já pela manhã, Zeca desliga o motor.
– Acorda, velho, ta pensando que isso aqui é pensão? Se quiser ir para a Polinésia tem que trabalhar para
pagar a viagem.
O velho não responde.
– Velho?
Zeca corre a casaria. Encontra o velho em sono profundo. O sono eterno que alivia a dor e a tristeza. O
sono que não tem volta. O sono que embala a alma.
– Levanta, velho, você não realizou ainda o seu sonho. Temos que ir para a Polinésia, esqueceu?
Zeca está transtornado. O destino pregando de novo sua peca. Tomado de loucura amarra o velho contra o
timão escorando para que o barco siga em linha reta, a todo vapor.
Assim, com o velho como timoneiro o barco singra as ondas um pouco enfurecidas. De pé na proa, braços
abertos, o vento forte contra o corpo, Zeca mais parece um espantalho em meio à plantação.
– Vai, velho, acelera. Vamos para a Polinésia, lá seremos recebidos pelo príncipe e lindas morenas de
seios fartos nos darão leite e mel.
Sua voz se perde no vento e o barco segue em sua rota suicida.
* * *
Sentado na escada do barraco um morador da Vila dos Pobrezinhos observa o mar. Do fundo do barraco
chega o som de passos arrastados.
– E aí, ele não veio? – pergunta a mulher.
– Não, O Príncipe não veio – lamenta o parceiro.
Os passos cansados voltam a se esconder na cova escura da pobreza.
Lá na praia o mar vomita brancas espumas. No pequeno cais da Vila dos Pobrezinhos O Príncipe nunca
mais aportou, como a felicidade para muitos que passaram pela vida, passageiros de uma noite sem
nenhum brilho a espera de um dia que nunca chegou.
(volta)
|
|
|
|
|
|
|
|