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ESCRITORES


Hércules Scaramussa


O DIA QUE NUNCA CHEGOU


O pequeno barco sulca mansamente a superfície do mar formando pequenas ondas. De pé na proa Zeca não perde os olhos da distância, ansioso por regressar. Aos poucos o barco se aproxima da margem e já se divisa o pequeno cais perdido entre as pequenas luzes que iluminam a noite na Vila dos Pobrezinhos. A Vila se formou com a instalação na região de uma grande fábrica de tecidos. Promessa de muito emprego aos poucos atraiu muitas pessoas, cansados da labuta no mar e sonhando com uma vida melhor.
Tudo não passou de um grande engodo. Os proprietários exploraram a farta mão de obra barata até o dia em que sumiram do mapa deixando uma grande dívida na praça e não mais que máquinas ultrapassadas e um galpão velho. Ao trabalhador só restou o mar e o mangue em que a maioria se afunda todos os dias a cata de caranguejo. Alguns, como o pai de Zeca, tornaram-se grandes pescadores, mas a maioria abandonada à própria sorte foi se amontoando no morro formando o que é hoje a Vila dos Pobrezinhos.
Zeca começou a pescar aos doze anos acompanhando o pai e poucos anos depois quando esse faltou tomou para si a responsabilidade de cuidar da mãe e um irmão menor a ponto de ser respeitado tanto pelo caráter quanto pela destreza do trabalho no mar.
Não via a hora de saltar em terra e correr para os braços de Miriam, sua doce morena de olhos verdes a quem aprendeu a amar sob as fartas amendoeiras em que a lua insistia em iluminar. Esperava ansioso pelo dia em que se tornariam um só. Tão forte quanto essa paixão só mesmo o mar com quem aprendeu a conviver em anos de trabalho e solidão. Para Zeca o mar é como um campo semeado a espera do lavrador que vem fazer a colheita.
Nem bem o barco atraca, Zeca salta em terra dando ordens para que descarreguem a carga pesada de muitos peixes.
– Olha se não é o grande pescador das águas geladas – deixa escapulir um bêbado com voz arrastada. – Vê se não enche, beberrão – retruca Zeca com um leve sorriso.
– Está com pressa e não é pra menos. Sua morena está aos abraços com o Tonhão Rico - fala desgraçadamente o insolente.
Os olhos de Zeca fervem enquanto salta sobre o bêbado. Segura-o pelo colarinho a ponto de sufocá-lo. – Desgraçado vou te mostrar com quantos paus se faz uma canoa.
– Não me machuca, só falei o que vi – choraminga o infeliz.
– O que você viu, desgraçado, fala!
– Eles estão no salão da igreja, eu vi com esses olhos que a terra a de comer.
Zeca esquece o Bêbado e corre para a igreja tomado de louco ciúme.
Antonio Pedrozo, conhecido na região como Tonhão Rico, é filho de fazendeiro, dono de muita terra e respeitado mais pelo dinheiro do que por qualquer outra coisa. Sujeito de poucos predicados se dedica a farrear e se divertir as custas do dinheiro fácil. De olho em Miriam tratou de armar uma trama para separá-la de Zeca.
Miriam fazia um belo trabalho junto à igreja da Vila, catequizando as crianças e angariando fundos para ajudar as muitas famílias pobres da região. Valendo-se disso Tonhão Rico propôs um baile beneficente em que doaria fundos para a igreja, mas com a condição de que passaria o baile inteiro a dançar com Miriam.
Tonhão sabia que o coração doce de Miriam cederia a esse sacrifício para que mais famílias pudessem ser atendidas Miriam consultou o padre que não achou nada de muito estranho partindo de quem vinha e prometeu ficar por perto para evitar qualquer tentativa de abuso.
O passo seguinte de Tonhão Rico foi colocar o bêbado plantado no cais para provocar Zeca. O pobre coitado relutou em aceitar e só o fez após tomar um porre daqueles.
Caindo na armadilha Zeca entra no salão da igreja afastando as pessoas. Seu rosto moreno do sol fresco do mar contrasta com a palidez do recinto.
– Prepare-se para apanhar safado.
– Zeca, não é o que está pensando – Diz Miriam ao se aproximar.
Zeca a empurra, as pessoas se afastam com um misto de curiosidade e medo.
– Não sabe como desejei esse momento – fala Tonhão Rico com um riso descarado.
Zeca acerta um duro golpe e Tonhão cai estatelado ao chão.
– Coitado, esse já era – comenta uma das pessoas por perto.
Tonhão levanta enfurecido e tenta partir para cima de Zeca que se esquiva e o arremessa contra a parede.
Tonhão balança a cabeça e tenta se restabelecer. Ferido na honra tira do casaco um revólver e o alvoroço é total. Enquanto as pessoas tentam escapar pelas portas e janelas Zeca espertamente pula em cima do oponente na tentativa de imobilizá-lo. Os dois rolam pelo chão e ouve-se um disparo. Zeca desfere bons golpes e consegue arremessar a arma para longe. Valendo-se de um momento de distração, Tonhão puxa um punhal que Zeca traz a cintura e desfere um golpe atingindo-o no ombro. A luta prossegue feroz misturada aos gritos assustados dos expectadores. Tonhão tenta valer-se do ferimento para tentar golpear mortalmente o adversário. Nos seus olhos só existe ódio e a ganância em possuir o que por direito não lhe pertence. Mas Zeca acostumado ao trabalho duro tem uma resistência de ferro e o golpe destinado ao seu peito acaba acertando o coração de Tonhão Rico.
Zeca se desvencilha do oponente e só então vê toda a tragédia. De um lado do salão, Tonhão mortalmente atingido pelo punhal e de outro Miriam, atingida pela bala perdida. Zeca corre ao seu encontro não acreditando no que vê.
– Foge Zeca, caso contrário estarás perdido – aconselha o Padre, apavorado.
Zeca vacila, mas o instinto fala mais alto e sai as pressas do salão. Sua cabeça gira como em um liquidificador de dores e culpas. Suas mãos hábeis no manejo das redes fora capaz de tirar a vida de duas pessoas e isso o perseguiria para sempre.
Zeca entra no barco e parte para o mar. O pequeno ferimento no ombro ainda sangra, mas ele nem sente.
Filho do sol e do sal mais do que nunca abraça o mar, única saída para sua tragédia.
Com o barco em alto mar ainda ouve os gritos martelando em sua cabeça. Desliga o motor e deita na proa, olhos fitos no céu em que estrelas mudas o contemplam com claridao. De repente, ouve-se um rumor que vem da casaria. Zeca segura o arpão e se aproxima devagar. Pula dentro da casaria, o arpão pronto para atingir quem se apresentasse.
– Não Zeca, sou eu, o velho marujo – grita o infeliz, mãos abertas a se proteger.
– Desgraçado, você poderia morrer, sabia? – Vi quando você chegou na vila. Assim que descarregaram o barco entrei para tirar um cochilo em paz, longe daqueles infelizes que ficam me maltratando nas calcadas.
– Velho tolo, agora vai acabar no mar, comida para tubarões.
– Não Zeca, eu posso ajudá-lo. Fui marujo por muitos anos, já te contei minha história.
Zeca não contava com aquele intruso em seu caminho. Fadado a vagar pelo mar sentia-se incapaz de se responsabilizar por alguém. Não queria correr um novo risco, seu coração estaria fechado para sempre.
Mas o que fazer com o infeliz que se meteu em seu barco?
– No primeiro porto te deixo e você segue o seu caminho. Ate lá boca fechada e para pagar a estadia vai ter de trabalhar duro.
– Sempre quis voltar ao mar. Quando navegava pelo mundo conheci muitas terras mas nenhuma se compara a Polinésia. Lá tem morenas de seios fartos que em língua Chamorro e gestos convidativos nos tiram para dançar. O príncipe oferece leite e mel e senta ao nosso lado. Em seguida pede para contar estórias do mar enquanto a lenha ferve na fogueira.
– Ta bom, velho, agora vá dormir.
Zeca da voltas pela proa. Precisa agir rápido. Tem que se desfazer do barco para não ser preso pela guarda costeira.
Liga o barco e ruma para o porto mais próximo, freqüentado por atravessadores que ganham a vida explorando os pescadores e fazendo trocas vantajosas.
Zeca orienta o velho, em troca promete dar um bom dinheiro para que volte a vila. O velho se dispõe a ajudar, mas quer permanecer no barco para que um dia rumem juntos para a polinésia. Chegou mesmo a prometer parar de beber.
Zeca não tem saída a não ser aceitar a proposta do velho mesmo achando-a louca. Espera que com o tempo o velho se canse e volte para a Vila deixando-o seguir seu destino.
Enquanto o velho faz a barganha no cais, Zeca permanece no barco, ansioso.A troca não é fácil.
O atravessador valendo-se da pressa do velho tenta tirar a maior vantagem. O velho consegue um novo barco e a cumplicidade do atravessador, se bem que nesse tipo de gente não se deve confiar, então rumam até uma praia deserta e pintam o barco. Por sugestão do velho o barco é batizado de "O Príncipe", certamente inspirado no seu sonho Polinésio.
O mar se oferece por inteiro e os dois solitários o agarram como a ultima esperança. As ondas vencidas são alucinógenos que amenizam a verdade a perseguir o barco e seus dois tripulantes.
O tempo é cúmplice no mar e usa asas ligeiras, o azul do céu confunde-se com o oceano e a noite de estrelas envia brilhos que embriagam o mais duro dos viajantes. As tempestades são encaradas como um bom desafio e a vontade de alcançar um sonho aliado à realidade de não ter mais o que perder são combustíveis formidáveis para a superação.
Tem momentos em que um vento diferente toca a janela e não temos como fugir. É hora de tomar a decisão por tantas vezes adiada. Os dois homens resolvem voltar a vila. Muito tempo já se passou e protegidos pelo anonimato atracam na calada da noite no pequeno cais.



(volta)